quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Marcos deixa o futebol e entra para a história


Dizem que todo goleiro é louco.  E não é pra menos, que profissão ingrata.  

É Herói, bandido, solitário, aclamado, vaiado... E isso tudo pode acontecer em um único jogo.
A vida de goleiro é repleta de reviravoltas e 90 minutos são suficientes para que ele vá dos céus ao inferno.

Alguns alegam que a profissão é tão ingrata e sofrida que nem grama cresce na pequena área.

Então nada melhor do que um verdadeiro torcedor para ocupar a posição. Um torcedor que daria sua vida para impedir o gol, um torcedor disposto a quebrar os próprios ossos do corpo para defender a meta do time que ama.

E o goleiro Marcos foi isto tudo. Foi herói na conquista da Libertadores da América de 1999, foi bandido na final do Mundial Interclubes contra o Manchester United, foi solitário quando foi  ao inferno com a queda do Palmeiras para a série B do Brasileirão, foi aclamado e chegou aos céus como um dos jogadores mais importantes na conquista da Copa do Mundo de 2012. Se um dia foi vaiado, com certeza as vaias foram abafadas pelos aplausos.

Ontem, 4 de janeiro de 2012, esse louco pendurou as luvas. Arrisco dizer que foi um dos mais loucos e um dos mais amados do futebol brasileiro.

Marcos deixará um enorme vazio no coração dos torcedores, e quando digo torcedores não me refiro apenas a torcida palmeirense. Afinal, com suas atuações, seu bom humor, simplicidade e franqueza nos momentos mais difíceis, conquistou todas as torcidas do futebol nacional.

Li diversas homenagens ao Marcão e agora tento escrever a minha, mas nenhuma e nem todas juntas são capazes de representar a importância deste goleiro ao futebol.
No entanto, gostaria de compartilhar com os leitores deste espaço um texto do escritor, cineasta, roteirista e jornalista José Roberto Torero escrito em 2008.


O verdadeiro Menino Maluquinho
Por JOSÉ ROBERTO TORERO
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Desconfio que o personagem de Ziraldo cresceu e se tornou Marcos, que como ele tem o raro costume de ser sincero
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JOVIAL LEITORA e infantil leitor, vós já lestes “O Menino Maluquinho”?
Eu já. E algumas vezes.

É um delicioso livro escrito em 1980 pelo Ziraldo, um imenso sucesso que já vendeu quase três milhões de exemplares. Ele conta a história de um garoto alegre e sapeca, que fazia as coisas que tinha vontade. Agora, eu vos pergunto: em que posição jogava o Menino Maluquinho em suas peladas de futebol?

E eu vos respondo: goleiro. Nada menos do que dez páginas do livro são gastas para contar a vida de goleiro do Menino Maluquinho, posição em que ninguém quer jogar quando criança, mas que ele abraçou com gosto e graça.

Pois bem, no fim do livro o menino cresce e não sabemos que profissão ele seguiu. Porém, desconfio seriamente que ele seguiu a carreira de goleiro. E mais ainda: desconfio que ele tornou-se Marcos, do Palmeiras. Os sinais são claros. Em primeiro lugar, Marcos nasceu em 1973, ou seja, tinha sete anos quando foi lançado “O Menino Maluquinho”, que provavelmente também tinha esta idade.

Outro sinal é que ambos fazem o que lhes dá na telha. Por exemplo, enquanto a maioria dos jogadores venderia a mãe para jogar no exterior, ele decidiu não ir para o Arsenal em 2003. É bem verdade que Marcos chegou até a viajar à Inglaterra para assinar contrato, mas foi a contragosto, e decidiu ficar por aqui: seu pai estava com problemas cardíacos, e a namorada, grávida. E ele tem o raro costume de ser sincero.

Nas entrevistas, enquanto a grande maioria dos jogadores dá entrevistas óbvias, que parecem ditadas por assessores de imprensa, Marcos fala o que realmente lhe vem à cabeça. Foi assim que disse a frase politicamente incorreta: “Fumo um ou dois cigarrinhos quando tomo uma cerveja”. E, quando o criticaram por fumar, retrucou: “Isso deu mais polêmica do que o Giba (do vôlei) ter fumado maconha. Acho que vou mudar para maconha”.

O menino de Oriente, cidadezinha de 6.000 habitantes, tem língua afiada mas é ainda melhor com as mãos. Os palmeirenses jamais esquecerão dos pênaltis que ele defendeu contra o Cruzeiro pela Mercosul ou das suas partidas contra o Corinthians na Libertadores, quando Marcos parecia uma parede de tijolos construída entre os três paus. E os brasileiros em geral hão de lembrar de suas defesas contra a Turquia ou daquela logo nos primeiros minutos da final da Copa de 2002, quando um alemão deu um chute espetacular de fora da área, e Marcos, com a pontinha da unha, desviou a bola para a trave. É claro que ele fez jogos terríveis, como na derrota por 7 a 2 para o Vitória, em pleno Parque Antártica, quando falhou em três gols.

Mas, mesmo neste momento, em vez de jogar a culpa na defesa, assumiu seus erros e disse: “Ainda bem que o Vitória não chutou mais a gol depois do 7 a 2. Eu nem ia pular mais nas bolas”. Em 2007, Marcos parecia caminhar para a aposentadoria. Era uma contusão atrás da outra, e Diego Cavalieri vinha jogando bem. Mas ele se recuperou, mandou o jovem talentoso para a reserva e voltou a ser um dos melhores goleiros do país. Talvez o melhor. E sem deixar de ser simpático e original, pouco se importando com a imagem. “Se me importasse, fazia a barba todos os dias.” 

O palmeirense hoje se despede de um dos seus maiores ídolos. São Marcos de Palestra Itália.  

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